domingo, 19 de setembro de 2010

DEFINE A SUA CIDADE - Gregório de Mattos


DEFINE A SUA CIDADE
(Gregório de Matos)

De dois ff se compõe
esta cidade a meu ver:
um furtar, outro foder.

Recopilou-se o direito,
e quem o recopilou
com dous ff o explicou
por estar feito, e bem feito:
por bem digesto, e colheito
só com dous ff o expõe,
e assim quem os olhos põe
no trato, que aqui se encerra,
há de dizer que esta terra
de dous ff se compõe.

Se de dous ff composta
está a nossa Bahia,
errada a ortografia,
a grande dano está posta:
eu quero fazer aposta
e quero um tostão perder,
que isso a há de perverter,
se o furtar e o foder bem
não são os ff que tem
esta cidade ao meu ver.

Provo a conjetura já,
prontamente como um brinco:
Bahia tem letras cinco
que são B-A-H-I-A:
logo ninguém me dirá
que dous ff chega a ter,
pois nenhum contém sequer,
salvo se em boa verdade
são os ff da cidade
um furtar, outro foder.




domingo, 12 de setembro de 2010

O VAPOR DE CACHOEIRA NÃO NAVEGA MAIS NO MAR (Djalma Filho)


O VAPOR DE CACHOEIRA NÃO NAVEGA MAIS NO MAR
(Djalma Filho)
                   
                urina de ratos
                    - a escorrer -
            por entre as pedras portuguesas

        [redondas quais cabeças de frade]


            - Sorria, você está na Bahia!
           
[o mosteiro de São Francisco é logo ali]

                            onde,
                    por entre pedras portuguesas,
                        escorre urina de ratos
                        - incessantemente

[o mosteiro de São Francisco é logo ali]
   
                            onde,
                        todas as terças-feiras,
            quentinho, sai o pão que o diabo amassou
                            e,
                            onde,
na nave da igreja, só fica a quem Deus já esconjurou
               
                    [Ogunhê!]

            - Sorria, você está na Bahia!

[o mosteiro de São Francisco é logo ali]

                            onde,
                        perto, bem perto,
                                dizem
                    do negro liberto,
                        do filho de escravo,
                            do branco sem paz
                                que,
                no colo de Oxalá, preto virou

                    [Atôtô!]

            - Sorria, você está na Bahia!

                            onde,
tudo é belo,
                        todos são belos
                - talqualzinho à Oxum Docô!

[o mosteiro de São Francisco é logo ali]
                                
                            onde,
                    putas moças, putas velhas,
                sobre batentes, sobre esgotos,
                    de peitos de fora,
procuram quem lhes queiram fazer um neném

            - Sorria, você está na Bahia!

[o mosteiro de São Francisco é logo ali]

                            onde
    ainda escorre urina de ratos por entre as pedras portuguesas

                        [olha o afoxé!]

                    Vambora, Bahia -
                qualquer, o seu estado...


Nota do autor: Meses antes de ir para Guaíba, fui ao Pelourinho. Lá, eu vi uma Bahia triste, com suas praças sem artistas e suas ruas entregue aos traficantes, às prostitutas, aos meliantes... Numa situação não muito diferente daquela Bahia de alguns anos atrás, quando se cogitava até na queima dos casarios históricos e ruídos do seu centro... Uma Bahia triste, onde urina de ratos e de homens se misturava e rolava ladeira abaixo, pelas pedras portuguesas. Voltamos à Triste Bahia - quem não ama sua terra, não pode jamais governá-la.
            Guaíba, 12 de setembro de 2010